Depois
de passar por três demissões em grandes companhias como Bunge, Brother
International e Brookfield, onde atuou como diretor-financeiro, Ricardo Leite,
de 51 anos, conseguiu reverter a situação e conquistou o seu primeiro cargo
como diretor-geral em uma empresa da área de meio ambiente há um ano e meio. Os
desligamentos, que ocorreram ao longo de quase 14 anos de carreira, segundo
ele, não o pegaram de surpresa.
“Há
sinais claros de quando a empresa está querendo demitir um executivo. Fazem
reuniões e não nos chamam, por exemplo. Quando há algum tipo de fusão ou
aquisição, é certo que a outra empresa trará a sua equipe. E quando o negócio
não está indo muito bem, o primeiro campo a ser mexido é o alto escalão. Foi o
que aconteceu comigo”, diz.
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| Imagem: Divulgação |
O
consultor em gestão de pessoas, Eduardo Ferraz, confirma a percepção de Leite.
“Trabalho há 20 anos nesta área. Acho estranha a reação das pessoas quando são
demitidas, porque os sinais são evidentes. Se o seu desempenho deixa a desejar,
é claro que há risco de demissão; se a empresa não vai bem, todos correm risco,
porque ela pode querer mudar o comando e trazer algum resultado, ou pode
demitir para conter gastos, por exemplo.”
Para
ele, mesmo que o profissional não tenha observado os sinais e seja desligado da
empresa, ele não pode “se dar ao luxo da reclusão”. “É natural querer ficar um
pouco sozinho refletindo sobre a vida e a carreira, mas não recomendo
ultrapassar 15 dias de descanso”, diz. Passado o período, Ferraz aconselha o
profissional a acionar o quanto antes a sua rede de relacionamentos e mostrar
que está disponível no mercado. “É o principal e o mais eficiente canal de
recolocação profissional”, garante.
Opinião
semelhante tem a consultora de transição de carreira da Right Management,
Marcia Oliveira. “É um momento de reflexão sobre o que o profissional quer da
carreira e sobre o que fez até aquele momento para ser reconhecido pelo
mercado. Mas este questionamento não pode durar muito tempo. Passada a fase
ruim, é hora de atualizar o currículo, ver as empresas que interessam e correr
atrás delas.”
O
vice-presidente de operações para o Brasil e América Latina da LHH/DBM, José
Augusto Figueiredo, acredita que uma parada curta é necessária para o profissional
se “desintoxicar da outra empresa”, ganhar fôlego para ir atrás de
oportunidades e começar bem em outro local.
“A
parada é importante para se descobrir onde a sua atuação faz a diferença e o
que sua bagagem profissional tem de melhor na comparação com outros
candidatos”, comenta Figueiredo.
Para
a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine
Saad, é natural as pessoas se assustarem com a demissão em um primeiro momento.
“Mas é preciso manter a calma e lembrar que é um procedimento natural. Também é
bom tentar obter um retorno da empresa que o está desligando sobre os motivos
que resultaram na demissão. Assim, fica mais fácil corrigir eventuais erros”,
afirma.
Cautela
Tanto
Marcia quanto Ferraz aconselham o profissional a não disparar currículos para
todos os cantos em uma busca desesperada por uma vaga. “É pior ficar recusando
propostas que não lhe agradam do que selecionar bem as empresas de seu
interesse e fazer um currículo mais elaborado ressaltando as qualidades que vão
deixar essas companhias interessadas no seu trabalho”, diz Marcia.
Se
o profissional está com dificuldade para conseguir um emprego, vale investir em
um trabalho voluntário na sua área de atuação. “Não é raro encontrar pessoas
que criaram uma rede de relacionamento durante este tipo de ação e acabaram
conquistando a recolocação em uma empresa maior”, conta Ferraz.
Se,
no entanto, as economias obtidas na rescisão estão se esgotando, e a dificuldade
para arrumar um emprego é grande, Ferraz aconselha a buscar alternativas
temporárias, mesmo que em outra área, para incrementar a renda durante o
período. “Mas o profissional jamais pode perder o foco do que deseja na
carreira.”
No
caso de Ricardo Leite, nas três ocasiões em que ele foi demitido, as empresas
lhe ofereceram outplacement – consultoria que auxilia o profissional na
transição da carreira – e ele conseguiu recolocação.
“As
orientações que recebi me ajudaram muito. Percebi que a minha vocação é, de
fato, para o mundo corporativo e que não tenho um perfil empreendedor aguçado
para montar um negócio”, conta. (Veja mais sobre outplacement abaixo).
Ouplacement
auxilia quem perdeu o emprego
No
fim do ano passado, o espírito empreendedor da engenheira elétrica Gislaine
Gallette, de 42 anos, a levou a propor um acordo de demissão ao banco onde
trabalhava desde 2000 para montar seu negócio, a Gallette Chocolate Gourmet. A
ideia era sair amigavelmente, com todos os benefícios, incluindo um programa de
outplacement, que auxilia o profissional na transição da carreira. O negócio
deu certo.
“Achei
que era o momento de mudar minha vida em 360º. Por sorte, a empresa aceitou a
minha proposta e eu consegui finalmente realizar o sonho de me dedicar ao meu
negócio e ao chocolate, minha grande paixão”, diz.
Gislaine
recebeu a consultoria durante sete ou oito meses. “Foi importante, porque eles
me auxiliaram a consolidar o modelo de negócio que eu pretendia seguir. Fizeram
eu me enxergar como empresária e o que tinha de fazer para colocar tudo o que
sonhava em prática”, comenta.
Assim
como Gislaine, muitos executivos acabam utilizando programas de outplacement
para nortear a sua carreira após sair do emprego.
Segundo
o vice-presidente de operações para o Brasil e América Latina da LHH/DBM, José
Augusto Figueiredo, as empresas que oferecem este tipo de programa estão
crescendo. Estima-se que atualmente 20% das companhias brasileiras dão este
tipo de consultoria. “Se pensarmos no eixo Rio-São Paulo, o porcentual sobe
para 35%”, diz.
A
afirmação de Figueiredo é compartilhada pela vice-presidente da Associação
Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad. “O Brasil já é um mercado
maduro no que se refere ao outplacement. O programa foi muito utilizado durante
a crise financeira de 2008, quando as companhias demitiram bastante. E hoje é
usado dentro da normalidade do mercado.”
Segundo
a consultora de transição de carreira da Right Management, Marcia Oliveira, 71%
dos seus clientes que passaram pelo outplacement em 2011, conseguiram
recolocação profissional em até três meses.
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